Será que é ai que está o verdadeiro lance?
Em saber a verdade?
Lá no fundo, uma voz grita,
Sinto que está ficando rouca.
Ela diz: É você, você pode!
Mas quem me garante que não sou eu me enganando?
Quem me garante quem eu sou?
Quem pode me ajudar nesta questão, a não ser eu mesmo ?
E se não confio em mim o que me resta?
Chorar, gritar, correr, pular?
Escrever...
Ouço alguns dizerem:
Você pode, você é bom!
Potencial?
Palavra estranha para mim,
Significaria, eu posso?
Quem disse a eles, quem disse a todos os outros?
Como eles sabiam?
Simplesmente sabiam.
E se não sei, significa que não sou?
E se não confio em mim o que me resta?
Fazer, beber, fugir, peder?
Escrever...
Quando estou sozinho, vozes gritam em minha cabeça
Mas, do que estou falando?
Eu sempre estou sozinho.
Um nada me invade e toma conta do que acho que sou.
Quando não há ninguém por perto,
Neste exato momento, estou transbordando de nada
E ondas vem e vão,
Certezas e incertezas.
Apenas as incertezas são certas,
As certezas que tenho se desmancham em lágrimas.
Será que minto para mim?
Talvez não, mas já menti.
E se não confio em mim o que me resta?
Pedir, dormir, comer, sair?
Escrever...
As lágrimas são inevitáveis, uma certeza?
A solidão é tudo que temos, uma certeza?
Todos eles sabiam a verdade, uma incerteza.
Todos conseguiram porque eram bons, uma incerteza.
Eu posso, incerteza, eu tento, certeza,
Eu faço, certeza, faço bem, incerteza
A onde esta estrada me leva?
O que vem depois?
Querer saber!
Lá no fundo a fagulha da dúvida não se apaga
Mas esta incerteza é melhor do que a certeza de ela nunca ter existido.
Raylson Bruno
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Porque eu posso
Num domingo de verão, à tarde, no Anhagabaú, o vento sopra fresco, como se o tempo o houvesse economizado a semana inteira, não entregando às centenas de transeuntes que são obrigados a trafegarem por ali, guardando-o para nós, que estamos aqui por prazer, que trazemos nossos livros, nossas namoradas, nossos pensamentos para desfrutar desse cenário tão meticulosamente arquitetado. E foi em um destes domingos que vislumbrei, pela primeira vez, um sentimento que mesmo muitos anos depois, não viria a nomear ou distinguir.
A brisa soprava insistente, tentando virar as páginas do meu livro, o que fazia com que tivesse de segurá-lo com as duas mãos. À minha frente, um pouco distante, skatistas arriscavam suas manobras em degraus que serviam, em outros momentos, como bancos, guardas conversavam em um posto policial mais a frente e algumas crianças e cachorros corriam e saltavam em frente a seus donos e/ou pais. Reparei que, pela terceira vez em menos de cinco minutos, aquele homem passava a minha frente. Olhou para meus sapatos que estavam fora dos meus pés, minha mochila aberta a meu lado, o livro que eu tentava ler e depois me olhou. Notou que eu o encarava, mas não se deixou intimadar por isso, sentou-se a uns dez ou quinze metros de costas para mim, ficou ali por uns instantes e saiu. De rabo de olhou o acompanhei enquanto dava a volta na área onde eu estava, que era uma figura geométria indistinguivel limitada de todos os lados por uma cerquinha de uns trinta centrimetros de altura, haviam algumas palmeiras pequenas e alguns arbustos. Fechei o livro e o pus na mochila, fechando o ziper rapidamente. Ele aproximou-se e parou a meu lado. Fedia, estava sujo e trajava farrapos. Olhou em volta enquanto eu apertava a correia da mochila e media a distância entre minhas mãos e o par de tenis a minha frente. Ainda sentado, encarei-o irritado e ele esboçou um sorriso cínico no canto esquerdo dos lábios feridos. Mostrei o posto policial com os um gesto de olhos e reparei que seu sorriso cínico se espalhou por toda boca imunda. Aproximou-se um passo e resmungou:
- Está se borrando de medo, garoto. - sua voz parecia a minha, quando acordava de ressaca.
- Não tenho nada aqui, só livros e um caderno. - apesar de todo meu esforço para falar alto, a voz saiu baixa e tremula.
- Presta atenção! Se você não me entregar tudo agora, vou bater em você até você ficar mole. - ele estava sujo como um mendigo, se vestia como mendigo, fedia com mendigo, mas falava educadamente.
Os policiais nos olhavam, mas isso parecia não fazer diferença alguma para ele.
- Cara, a polícia está bem ali. Você não tem chance alguma. Me deixa em paz!
- Anda moleque. - deu um chute de leve nos meus pés e os policiais começaram a vir em nossa direção.
- Cara, porque você tá fazendo isso? - eu já estava realmente assustado e não conseguia me levantar.
- Porque eu posso. - disse isso enquanto pisava com força em minhas pernas - seu franzino metido a bosta do caralho.
Abaixou-se e desceu seu punho como um martelo, raspando minha testa e minha orelha direita até parar em meu ombro, o que me fez abaixar mais na grama e tentar, em vão, me virar para escapar. Um de seus pés continuavam prendendo minhas pernas e a dor me impedia de fugir. Mais socos vieram, descendo pesadíssimos, passando por entre meus braços, atingindo meu rosto, minha cabeça, meu peito. Achei que tinha soltado minhas pernas, pois agora além dos socos vinham chutes, por um instante pareceu-me que estava sendo espancado por três ou quatro homens. Senti o estalo de ossos em minhas costas, não havia mais oxigênio no ar. Nem sabia mais distinguir se estava com os olhos abertos ou fechados, clarões coloridos rasgavam o céu e o chão. Trovões ressovam dentro e fora de mim. Meus braços continuavam balançando em vão, os socos e chutes não cessavam, o tempo havia parado e as pancadas vinham de qualquer lado. Me parecia impossível que isto estivesse acontecendo, custava a encontrar um motivo para estar apanhando, nem sabia onde estava, nem quem era. Havia um terrível gosto salgado em minha boca e meu rosto estava completamente molhado, tinha também uma pedrinha que rebatia entre meus dentes. Queria perder os sentidos, desmaiar. Mas o tempo estava parado e tudo que existia eram socos e chutes e sangue e uma pedrinha em minha boca, não duas e dor, muita dor, que começava das minhas costelas para meu peito e ia se aninhar lá no fundo da minha alma. Em seguida fui jogado para frente e rolei na grama parando de bruços. Um instante depois vi que os policiais o haviam tirado de perto de mim, mas penavam para derrubá-lo, ele resistiu com alguns socos no ar, para depois ser acertado por um cacetete e derrubado de bruços na minha frente e com o rosto virado para mim. Me olhava e sorria, apanhando enquanto eu procurava meu dente quebrado, na pequena poça de sangue que eu havia cuspido a minha frente. Ouvia as pancadas abafadas que eram dadas em suas costas e não tinha forças para me erguer. Um cachorro veio me cheirar e seu dono veio em seguida para segurá-lo, desisti de me erguer e deixei meu corpo pesar sobre a grama. O outro continuava, apanhando, sorrindo e me encarando, ao que eu não conseguia desviar o olhar. Desejava estar em casa, desejava que tudo acabasse, perder os sentidos ou morrer, qualquer coisa que me livrasse daquele pesadelo. Mas a dor me mantinha acordado e aquele sorriso era como uma farpa na pele pequena demais para ser arrancada com a pinça, como um parafuso enferrujado e remoido que jamais vai ser removido.
Os policiais puseram o sujeito de pé e um deles veio em minha direção.
- Você está bem, rapaz? Já chamamos uma ambulância. O que esse cara queria? Por que não nos chamou logo?
Não sei. Eu não sei. - e as lágrimas vieram se juntar ao sangue em meu rosto.
by Raylson Bruno
by Raylson Bruno
Escolho o ódio
Vi o ódio
Olhei-o nos olhos, encarei e baixei a cabeça
Forte, seguro e nítido,
Cruel e dissimulado
O que eu vi?
Vi a maldade
Agora, sei que diziam a verdade
Indestrutível e indissolúvel,
Competente, infalível.
O que foi visto?
Mas aqui misturo os dois. E confundo.
Misturo meu ódio à maldade alheia.
O competente é a maldade
O ódio é caos
O infalível é a maldade
O ódio a isso é o que nunca deve ser dissolvido.
Vi ambos
Maldade real e de uma pequenez indescritível.
Calma, fria e instigante
Maldade que não permite explosões
Detem o controle
Pisa, humilha
O ódio, apenas vislumbrei,
Sua face não me é estranha,
Já o havia visto de relance.
Maldade com ou sem limites?
Torço para nunca descobrir a resposta.
Autor, Raylson Bruno
Olhei-o nos olhos, encarei e baixei a cabeça
Forte, seguro e nítido,
Cruel e dissimulado
O que eu vi?
Vi a maldade
Agora, sei que diziam a verdade
Indestrutível e indissolúvel,
Competente, infalível.
O que foi visto?
Mas aqui misturo os dois. E confundo.
Misturo meu ódio à maldade alheia.
O competente é a maldade
O ódio é caos
O infalível é a maldade
O ódio a isso é o que nunca deve ser dissolvido.
Vi ambos
Maldade real e de uma pequenez indescritível.
Calma, fria e instigante
Maldade que não permite explosões
Detem o controle
Pisa, humilha
O ódio, apenas vislumbrei,
Sua face não me é estranha,
Já o havia visto de relance.
Maldade com ou sem limites?
Torço para nunca descobrir a resposta.
Autor, Raylson Bruno
Calma
Despertei
E desperto, continuo
Calmamente
E a calma me deprime
Deprimido, sigo
Não em frente, para o lado
Ao lado, companhia
Acompanhado, continuo
Agora em frente
Da calma me desfaço
Junto dela segue a depressão
Continuar é bem melhor
Durmo novamene.
Autor, Raylson Bruno
E desperto, continuo
Calmamente
E a calma me deprime
Deprimido, sigo
Não em frente, para o lado
Ao lado, companhia
Acompanhado, continuo
Agora em frente
Da calma me desfaço
Junto dela segue a depressão
Continuar é bem melhor
Durmo novamene.
Autor, Raylson Bruno